Advogados são vistos como criadores de problemas, complicadores de situações aparentemente simples, causadores de controvérsias, incentivadores de litígio, limitadores de ideias dos clientes, maliciosos e, muitas vezes, não confiáveis.
Não é de graça. A cultura do embate e a notória capacidade de encontrar problemas de toda ordem em quaisquer situações apresentadas, além da participação histórica em bastidores de jogos de poder, são fatos conhecidos que atravessam os séculos. Além disso, a categoria esteve sempre em meio a grandes conflitos, protegida pela própria autorregulação de conduta e pelo suposto domínio dos segredos das leis.
Quando, portanto, vê-se a figura clássica do advogado afrouxando o colarinho no final da tarde, olhando o relógio para atender dezenas de prazos, sofrendo com decisões judiciais, fervendo os neurônios para dar conta de sobreviver em um ambiente de demandas frenéticas e respondendo mensagens (por e-mail e celular) vindas de todo lado – especialmente de clientes ainda mais ansiosos -, a conclusão é uma só: a responsabilidade por tamanho estresse é exclusivamente dele.
Quem gerou a fama de complicar ainda mais os problemas em vez de buscar soluções simples?
Quem propagou que a técnica jurídica é a única capaz de resolver a dor do cliente?
Quem sempre foi notoriamente prolixo, comunicando-se de forma rebuscada e com jargões técnicos desnecessários?
Quem nunca estabelece corretamente o valor de seu trabalho e relega as finanças do escritório ao segundo plano?
Quem absorve a angústia do cliente como se fosse sua?
Quem torce o nariz para atividades de desenvolvimento pessoal e foca estudos apenas em conteúdo jurídico?
As perguntas são diversas e a resposta ecoa em todos os ângulos: o advogado.
Tem saída? Claro que sim. E o lado bom de ser advogado é que, ao sermos treinados para fazer uso da criatividade no âmbito técnico, instalamos tal característica em nosso modo de pensar e podemos usá-la muito além das demandas legais. Basta querer expandir o foco e a consciência – de nós mesmos e das situações em que nos inserimos.
O que funciona? Depende da intenção, da disciplina e da flexibilidade mental de cada um. As estatísticas mostram, no entanto, que seguir os conselhos abaixo, ao menos, diminui o risco de crises de ansiedade, síndrome de burnout e quadros depressivos – tão comuns nesse meio.
- ENTENDER QUE O MERCADO MUDOU. Na verdade, o mundo mudou. A última década, com o desenvolvimento cada vez maior das ferramentas tecnológicas, trouxe revoluções comportamentais profundas no mercado consumidor em geral. E no mercado jurídico não foi diferente. É preciso desapegar-se dos modelos tradicionais de atuação e buscar as melhores formas de resolver as dores dos clientes conforme seu nicho, suas peculiaridades, sua linguagem e sua inserção na sociedade – e não de modo imposto e meramente técnico, como muito se vê por aí. Fluir de forma orgânica com os movimentos do mercado e não amarrar-se a padrões que “antes funcionavam” cria mais espaço para uma atuação profissional mais leve e satisfatória. Insistir nas antigas fórmulas gera cada vez mais estresse e sensação de fracasso.
- ESTUDAR PESSOAS. Parece óbvio, mas está ainda longe da realidade geral. Normalmente, ao ser apresentado a um caso, o advogado pensa primeiramente na legislação aplicável, no que o Judiciário diz a respeito, nos casos similares que já participou, e somente após – se o faz – parte para análise das motivações das pessoas por trás da empresa, do negócio, do processo, do fato jurídico em questão. E, muitas vezes, tem retrabalho. A riqueza de conteúdo pessoal dos envolvidos pode fomentar uma infinidade de soluções que, apenas complementadas pelo conteúdo técnico, já seriam capazes de encerrar um caso bem antes do tempo “normal”. Estudar pessoas estimula muito o acesso a novas soluções. Contudo, exige quebrar diversos paradigmas da formação acadêmica jurídica tradicional, ultrapassar barreiras conceituais, integrar-se a sistemas multidisciplinares aparentemente estranhos ao Direito e estar em constante estado de curiosidade pelo desenvolvimento humano. Possuir olhar atento aos detalhes pessoais dos casos gera relações mais leves, abertas e autênticas entre o profissional e o cliente.
- ESTUDAR-SE: Investir em autoconhecimento. Soa clichê, mas é talvez a maior porta de saída do estado de estresse tão nocivo e tão presente no meio jurídico. O enfraquecimento, em geral, do estudo profundo das ciências humanas, em especial da Filosofia, faz com que o Direito, hoje, converse muito mais com números do que com reflexões de consciência. O advogado, por sua vez, carrega o mesmo sintoma e acaba operando no automático. E o automatizado, em confronto direto com as oscilações emocionais naturais do ser humano, gera muito estresse. Além de não estudar pessoas, o advogado normalmente não se analisa, é refém das próprias crenças limitantes, reage de forma repetida aos estímulos estressores e corre em círculos até o fim da vida por não atentar que a chave da mudança de comportamento encontra-se em sua própria mente. Terapias tradicionais, alternativas e complementares são indispensáveis ao bom desempenho mental – e qualquer preconceito que porventura emerja de tal afirmação é mais um ponto a ser tratado
- EXERCITAR A VISÃO CLARA DA REALIDADE. O meio jurídico é conhecido por ser repleto de fleuma e arrogância. O advogado insere-se em tal sistema e por ele é contaminado. Com o tempo, é como se vivesse em uma realidade paralela, onde só existe conflito, sofrimento, pressão por resultados e por performances estratosféricas, vontades de terceiros a serem atendidas imediatamente e outros assombros de toda ordem saltando aos olhos diariamente – tudo para que a noite de sono seja agitada e curta. Não é à toa que a sensação de estar “secando gelo” faz parte da rotina de milhares de profissionais que, não raro, pensam em deixar suas áreas, ilusionando paz e liberdade que não conseguem obter. Enxergar a vida como ela é, a realidade muitas vezes imutável e a impossibilidade de controlar o imponderável são cruciais para desfazer a miopia do cotidiano. Entender o que se vê, sem julgamentos ou exigências desmedidas significa ampliar o caminho para minimizar o desgaste mental.
- CONSCIENTIZAR-SE DA FINITUDE. A famosa lei da impermanência. Tudo acaba de alguma forma, ainda que não a pretendida. Se ontem foi ruim e amanhã não existe, devemos focar nas mudanças possíveis para hoje. Mais um clichê na lista, sim, mas “viver o presente” não se trata apenas de frase enlatada. O hoje é justamente o momento de maior poder para escolher o rumo que se pretende seguir. Quando o hoje acabar, teremos feito tudo igual, esperando resultados diferentes? Se ao menos começarmos a enxergar o presente com alguns lampejos de consciência de que todo muda, teremos mais acesso ao poder de melhorar o que nos incomoda. Criar caminhos somente é factível no agora, pois não há teletransporte ao futuro ideal e nem borracha que apague o passado. A ação só é viável hoje. Não se estressar só pode ser decidido neste momento. É escolha, é livre-arbítrio, é consciência profunda de que qualquer possibilidade pode tornar-se real. E, com isso, é possível desfazer “contratos” nocivos que firmamos conosco e com os outros.
Além das cinco reflexões acima, muito mais pode ser feito, conforme o nível de estresse ou frustração de cada um. Trabalhar a mentalidade mais adequada é um exercício diário e interminável, exige resiliência e foco e às vezes cansa. A certeza, contudo, é de que a escolha consciente sendo primeiro passo pode, sim, mudar tudo – mas só se for hoje.
por Luciana Farias



